"Buscava água... O bem mais necessário em São Paulo em um dia desses! Então virei à direita em direção ao local onde me lembrava. Mas, antes da água..." Banheiros públicos de uma cidade como São Paulo pode ser um local temido por muitos. Entre a população da cidade, tenho por certo que banheiros públicos estão pelo menos entre os tres lugares públicos onde um paulistano não gostaria de estar. Imaginando a cena em São Paulo, metrô Vergueiro, calor de 30° no inverno paulistano, poluição entupindo os pulmões, com a umidade do ar a 13%, vendedores de água e afins fazendo lucro... Como estaria um banheiro público paulistano em um dia desses?
Fui utilizar o lugar odiado dos paulistanos a contragosto. Mas, que agradável surpresa! Fui recepcionada alegremente com uma cantoria:
"Ernesto me convidou...
Dizendo que mora no Brás"
E prosseguia:
"Me deu, uma baita de uma 'réiva'..." *
A letra estava errada, mas era lindo! Só depois de ficar encantada com a alegre cantoria que vi a faxineira alegre que limpava aquele lugar. Cantarolava e passava o rodo no chão. Cantarolava e passava o pano na pia.
Deu vontade de agradecer a ela pela receptividade inusitada. Banheiro limpo e arrumado. Então pensei: "tenho que encontrar alguma coisa pra fazer que seja assim, que me faça cantar!"
Ao sair de encontro a pia, a cantarolante mulher ainda estava lá. Sorria e passava o rodo no chão. Sorria e passava o pano na pia.
Veio o ímpeto de falar com aquela valente mulher, que tinha um dos mais indesejados empregos de um paulistano, e trabalhava num calor de 32°, e ainda permanecia a cantarolar. Fiquei hesitante de quebrar o comum gelo paulistano, a indiferença que muitas vezes não sorri nas coisas comuns do cotidiano.
"Gostei de ver sua alegria! Trabalhando e cantando, é isso aí!", falei sorrindo.
Aquela mulher sorriu de volta, se bem que parecia que ela não tinha terminado de sorrir ainda. Então ela respondeu suavemente enquanto ainda torcia o pano na pia:
"É minha filha, como dizem, quem canta seus males espanta! Não adianta trazer os problemas pro trabalho não. Não é fácil não! Eu to aqui e nada aqui vai resolver lá. E eu tenho que ficar aqui."
Por um momento a serenidade dela me constrangeu. Ali não era o problema pra ela. Aquele trabalho estressante não era o problema pra ela. Os problemas estavam longe e ela não os trazia pra ali. Naquele indesejado local, só havia espaço para cantoria!
Troquei mais algumas palavras com aquela sorridente mulher, que floriu ainda mais a minha tarde ensolarada.
"Parabéns! Continue assim, cantanto!"
"Obrigada! Você é muito simpática..."
Sorriu. Sorri de volta. Pode ser que eu tenha alegrado um pouco mais a tarde dela, porque, afinal, eu a vi, não somente olhei pra ela.
Subi as escadas sorrindo, peguei a caneta e quis me lembrar pra sempre dela, da mulher "sorricantante". Então resolvi postar aqui, pra que ela possa viver para sempre. Pra ressuscitar sempre que eu ler e lembrar do sorriso e da voz dela. Pra eternizar.
"As palavras escritas são eternizadas".
Sim... Tem muita coisa maravilhosa na minha vida, e eu posso agradecer à própria vida por isso! Então, olhei para o céu, para o sol, pro contraste dos prédios, para a simplicidade daquela tarde paulistana, seca, porém ainda assim bela, pra alegria daquela tarde, e pensei em você! Sorri sozinha de novo...
"Sentada no jardim ensolarado, de repente me dei conta que o bebedouro se foi, e a sede por um momento também. Eu havia me esquecido da água. Mas agora a secura voltava lancinante..."
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